Casquinhas de Amendoim
- Joce Art

- 15 de fev.
- 2 min de leitura
Atualizado: há 4 dias
As casquinhas de amendoim pertencem a um tempo em que a Páscoa era mais engenho do que abundância, mais riso do que excesso.
Aprendi a pintá-las com minha madrinha, mulher de imaginação solta e espírito risonho, que trouxe da própria infância essa surpresa miúda. Em sua meninice, quando chocolates eram luxo distante, minha avó cozinhava ovos, pintava e os escondia pelo quintal para que as gêmeas e a caçula os encontrassem como quem descobre um pequeno milagre doméstico.
Já adulta, a Madrinha descobriu que nas escolas da roça do interior de Santa Catarina, onde alemães, ucranianos e poloneses fincaram raiz, era costume abrir os ovos com delicadeza, retirar a gema e a clara, lavar a casca e recheá-la com amendoim adoçado em pralinê, fechando-a com uma rodinha de papel de seda.
Encantada, teve a feliz ideia de reproduzir essa prenda, inaugurando uma nova
tradição de Páscoa.

Sete crianças da minha geração receberam, ano após ano, suas casquinhas feitas à mão.
A Madrinha usava tintas de tecido e sempre muito criativa, um dia usou esmalte de unhas. Chegou rindo, toda piadista que era, dizendo:
"Este eu pintei mas não parece porque a pintura saiu igual de uma galinha carijó!"
Um dos ovos preferidos das meninas era o vermelho escarlate com bolinhas brancas.
Os meninos disputavam o verde militar, que parecia uma farda do exército.
E ela achava graça.
Ao esvaziarmos todas, comendo os amendoinzinhos, cada casquinha era, e ainda é, cuidadosamente guardada para o ano seguinte.
O prazer de pintar nos faz aumentar a quantidade ano a ano. Cuidamos de separar ovos graúdos, que dão belas telas em branco.
Desde que a Madrinha partiu, em 2009, passei a reproduzir o gesto, ensinei meus filhos e sigo aumentando a cesta de ovos para os que hão de vir.



