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A Futilidade da Cópia: quando o “mais do mesmo” sufoca a arte autoral


Há um ruído constante no mundo das coisas feitas à mão, um zum-zum de novidade que, no fundo, pouco tem de novo. Vivemos a era da cópia travestida de tendência.

Reproduz-se à exaustão aquilo que vende, aquilo que viraliza, aquilo que se torna febre.

E, nesse tropel, o artesão, que era o criador, passa a operar como reprodutor diligente de um desejo que nem sempre é seu. A pergunta que fica, quase sussurrada entre um ponto e outro, é: onde foi parar a autoria?


Vemos, a olhos nus, a multiplicação de personagens que não nasceram das mãos de quem os faz. São figuras do momento, replicadas às centenas, às dúzias, às pencas. Há destreza, há técnica, não se nega.


Mas e a criação?


Imagem Ilustrativa
Imagem Ilustrativa


E o gesto inaugural, aquele sopro primeiro que dá existência ao que nunca foi visto? Onde repousam, hoje, os nossos personagens originais, aqueles que surgem antes da demanda, antes da moda, antes do mercado?


Há, nisso tudo, uma espécie de desencontro silencioso. O artista corre atrás do que acredita que o público quer. O público, por sua vez, consome o que lhe é oferecido em profusão. E assim se estabelece um circuito vicioso, onde ambos caminham, de certo modo, às cegas. Porque, no fundo, talvez nem o consumidor queira mais do mesmo - ele apenas não encontra outra coisa. E o artista, ao ceder reiteradamente ao apelo do que vende, vai, pouco a pouco, diluindo sua própria assinatura, até tornar-se indistinto na multidão de mãos que fazem igual.


E então surge a inquietação: há espaço, hoje, para o autoral? E, se há, onde se esconde? Em que esquina digital, em que feira esquecida, em que canto menos ruidoso se encontra aquilo que ainda não foi domesticado pela lógica da repetição? Como apresentar ao mundo algo que ninguém está procurando — justamente porque ainda não sabe que pode existir? Eis o paradoxo do nosso tempo: para ser visto, é preciso vender; para vender, é preciso corresponder. Mas corresponder a quê, exatamente?


Do lado de cá, enquanto consumidora, a sensação é de fastio. Entra-se em uma loja, outra, mais outra e tudo parece eco. Um milhão de variações do mesmo tema, da mesma paleta, da mesma ideia já exaurida. Feiras, bancas, vitrines: tudo replicado, alinhado como um exército de cópias bem-acabadas. E o mais do mesmo, convenhamos, empobrece. Barateia não só o preço, mas o sentido. Vai-se esvaindo a surpresa, o encanto, o encontro com aquilo que nos desloca um tantinho do habitual.


Convém, contudo, fazer uma distinção, fina, porém necessária. Nem toda cópia é vazia. Há uma cópia que preserva, que honra, que dá continuidade. Pensemos nas bonecas Tilda: um dia foram concebidas, brotaram de um conceito, de uma estética própria, e dali se desdobrou uma linha reconhecível, quase uma escola.


Não houve uma explosão desordenada que as esvaziasse; houve linguagem, houve identidade, houve continuidade. O mesmo se pode dizer dos jogos de tabuleiro: alguém os concebeu, estabeleceu regras, delimitou um campo. E, a partir disso, qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, pode jogar e chegar ao mesmo desfecho. Aqui, a repetição não empobrece, ela sustenta uma tradição. É uma cópia saudável, que não anula a origem, mas a perpetua.


Este texto, portanto, é um convite. Um chamado manso, porém firme, para que se reconsidere o impulso de seguir a maré. Que uma mãe, por exemplo, não se veja compelida a fazer um chá de fraldas inteiro baseado no personagem da estação apenas porque “é o que se usa”. Que se pense duas vezes antes de adquirir mochilas, canecas, camisetas e toda sorte de apetrechos que, embora vistosos no instante, não conversam com a história de quem os leva.


Porque há uma diferença sutil - e profunda - entre pertencimento e acúmulo. O primeiro constrói identidade; o segundo, apenas ocupa espaço. Objetos que não dialogam com o ser tornam-se, cedo ou tarde, ruído, descarte, esquecimento. E o que fica, no rastro de tanto consumo, é uma sensação rarefeita de vazio, como se nada daquilo tivesse, de fato, nos atravessado.


Talvez seja tempo de reabilitar o gesto criador. De dar guarida ao que nasce fora do compasso da moda. De permitir que o artista volte a ser, antes de tudo, autor - ainda que isso implique caminhar por veredas menos frequentadas. E ao público, cabe também um certo desassossego: o de procurar o que não está gritando nas vitrines, o de reconhecer valor no que não foi repetido à exaustão.


No fim das contas, a arte - quando viva - não se presta à mera cópia. Ela inaugura.

E tudo aquilo que inaugura carrega, em si, o frescor do que ainda não foi gasto. Talvez seja isso que andamos buscando, mesmo sem saber nomear.

 
 
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