A caixinha de Jornal
- Joce Art

- 26 de fev.
- 2 min de leitura
Atualizado: há 5 dias
Esta caixinha nasceu em 2001, quando eu morava em Artur Nogueira, no interior de São Paulo. Mas a técnica que a sustenta é bem mais antiga do que eu, e isso importa dizer.
Eu não a inventei. Eu a aprendi.
Naquele tempo, eu era professora de música. Entre minhas alunas havia uma senhora muito idosa, delicada e firme ao mesmo tempo, que alimentava o desejo tardio de aprender acordeão. Íamos devagar, nota por nota, e enquanto a música se insinuava entre os dias, ela me mostrou uma pequena caixinha feita de tubinhos de jornal.
Foi ali que a história começou.
Ela me contou como se fazia. Pilhas de jornal transformadas em centenas de tubinhos bem enrolados, rijos, quase como pequenos troncos domésticos. Um esqueleto simples de papel cartão, feito no tamanho desejado. E então o gesto paciente de colar os tubinhos, um a um, alinhados como madeira empilhada.
Uma técnica antiga, transmitida de mão em mão, que algumas pessoas usam para criar não só caixas, mas outros artefatos: cestos, molduras, pequenos móveis.
Eu aprendi observando, escutando, respeitando.
Comecei a produzir minhas próprias caixinhas para vender em lojas de presentes da cidade. Naquele tempo, ainda se compravam muitos jornais.
Lia-se jornal com outra cadência, outro hábito, outros tempos. As folhas se acumulavam nas casas, dobradas sobre a mesa, e era dali que nasciam os tubinhos.
Havia também um cuidado silencioso na escolha do papel. Eu nunca usava páginas de manchetes tristes, trágicas ou fatalistas. Preferia aquelas que contavam algo bom, ou ao menos útil: uma pequena notícia de bairro, uma receita, um anúncio simples.
Sempre acreditei que a palavra carrega uma energia, e que até o que não se vê, o que fica escondido sob a tinta e a cola, deixa vestígios.
Depois de coladas, elas recebiam camadas generosas de cola PVC, dessas de construção, secavam, endureciam. Vinham então a tinta branca base, que apagava as notícias impressas, e por fim a cor, feita com tinta de tecido.
Nesta, brinquei com o naipe de copas - um detalhe lúdico, quase íntimo.
Caixinha de Copas
Papel jornal_tinta de tecido_tinta PVC_cola PVC_verniz geral_Suporte Papel jornal (estrutura artesanal)
Imagino essas caixinhas habitando penteadeiras, guardando grampos, enfeites de cabelo,
cartões de visita, miudezas de costura ou pequenos utensílios da cozinha. Por fora, eram envernizadas, plastificadas, resistentes. Por dentro, surpreendentemente duráveis.
Fiz muitas. Vendi, presenteei, espalhei.
Esta ficou. Talvez para lembrar que o saber não nasce isolado, que técnicas antigas seguem vivas quando alguém se dispõe a aprender com escuta e cuidado.
Trabalhar com tubinhos de jornal exige paciência. Permite relevos na tampa, pegadores moldados à mão, detalhes que pedem tempo e silêncio. E ensina, com espanto, que aquilo que parecia frágil pode atravessar décadas.
Esta caixinha não fala de invenção. Ela fala de transmissão.
De memória. E da beleza discreta do que foi feito para durar.
Quando olho para esta caixinha, lembro exatamente do dia em que a fiz. Lembro do que passava na televisão, do lugar onde eu morava, da vida que levava naquela época.
Lembro do ritmo dos dias e, sobretudo, lembro da minha aluna querida - e da caixinha dela, aquela que primeiro me ensinou que o papel, quando tratado com paciência, pode atravessar o tempo.







